Sua maravilhosa conversão no caminho de Damasco, a
mais retumbante da História, deu-se por volta do ano 35. Tinha ele
cerca de 32 anos. É bem conhecido o episódio em que, subitamente envolto
por uma luz resplandecente, caiu por terra e ouviu uma voz vinda do
Céu:
— Saulo, Saulo, por que me persegues?
— Quem és, Senhor?
— Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
— Senhor, que queres que eu faça? — perguntou trêmulo o até então orgulhoso fariseu.
— Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer, — respondeu Jesus.
E Saulo, levantando-se, constatou que estava cego...
Para grandes males, grandes remédios. Que soberana
manifestação de Deus, reduzindo à impotência aquele que julgava tudo
poder! Cego, apenas sabia que devia se dirigir a Damasco: Aí te será
dito o que deves fazer...
A auto-suficiencia de Saulo fora substituída pela
humildade de Paulo. Morrera o fanático fariseu, perseguidor dos
cristãos; nascia o gigante da Fé que deslumbrará a Igreja.
Tudo no Apóstolo Paulo é grandioso
Em Damasco, Ananias lhe restituiu a vista e o batizou.
Em seguida, o néo-convertido passou três anos no deserto da Arábia,
sendo instruído pelo próprio Jesus. Voltando à capital da Síria,
pregou a fé cristã com tanto zelo e sucesso, que os judeus, furiosos,
tentaram matá-lo. Mas os discípulos fizeram-no descer à noite pela
muralha, dentro de um cesto.
Fugindo para Jerusalém, tentou juntar-se lá aos cristãos,
mas todos o temiam, não crendo em sua conversão. Então Barnabé
apresentou-o aos Apóstolos, narrando como em Damasco Paulo pregara
com desassombro o nome de Jesus. Permaneceu pouco tempo na Cidade
Santa, pois aí também alguns judeus quiseram matá-lo. O próprio
Jesus lhe apareceu, alertando-o: “Apressa-te e sai logo de Jerusalém
porque não receberão o teu testemunho a meu respeito. Vai, porque Eu te
enviarei para longe, às nações...”.
Portentosa epopéia evangelizadora
Com esse mandato do Divino Mestre, o Apóstolo iniciou
sua portentosa epopéia de evangelização entre os gentios. Partiu para
Tarso, e de lá seguiu com Barnabé para Antioquia, onde formaram uma
grande comunidade de fiéis. Nesta cidade, os discípulos de Jesus
foram chamados pela primeira vez de cristãos, para os distinguir dos
judeus e dos gentios.
Na ilha de Chipre, para onde os dois Apóstolos se
dirigiram, vemos um exemplo do fogo evangelizador de Paulo. O procônsul
Sérgio Paulo, homem sensato, desejava ouvir a palavra de Deus. Mas
Barjesus, um mago, procurava desviar da fé esse magistrado romano.
Então Paulo cravou os olhos no falso profeta e disse: “Filho do
demônio, cheio de todo engano e de toda astúcia, inimigo de toda
justiça, não cessas de perverter os caminhos retos do Senhor! Eis que
agora está sobre ti a mão do Senhor e ficarás cego. Não verás o sol até
nova ordem!” Ao ver o mago logo reduzido à cegueira, o procônsul
abraçou a fé, admirando vivamente a doutrina do Senhor. Apesar disso,
as autoridades da cidade expulsaram os dois Apóstolos, por instigação
dos judeus.
Assim, por sucessivas cidades, após a pregação
destemida do Evangelho, acompanhada por vezes de milagres admiráveis,
numerosas conversões se davam, o que ocasionava a perseguição por
parte dos dirigentes das sinagogas locais.
A sagacidade, virtude saliente dos Santos de todas as épocas
O Divino Mestre nos recomenda sermos simples como a pomba e astutos como a serpente.
São Paulo nos dá disso exemplo.
Foi ele pregar o nome de Cristo em Atenas, centro
intelectual do mundo antigo. Todos os dias, discutia com os judeus
nas sinagogas e anunciava na praça pública o nome de Jesus e sua
Ressurreição. Alguns filósofos levaram-no para discursar no Areópago,
local por excelência onde os atenienses se reuniam para dizer e ouvir
as últimas novidades. Demonstrando fina sagacidade, Paulo iniciou assim
seu discurso: “Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimo
religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso
culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um deus
desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vô-lo anuncio!”.
Quando, no final de seu discurso, o ouviram afirmar que
Cristo ressuscitou, muitos zombaram dele. Entretanto, alguns homens
creram e foram batizados, entre os quais São Dionísio Areopagita,
primeiro Bispo de Atenas.
Deus quer operar milagres através dos Santos
Deus deu a alguns de seus discípulos o poder de, em seu
nome, curar os enfermos, expulsar os demônios, e até ressuscitar
mortos. São Paulo valeu-se largamente desse poder, para atrair e
confirmar na Fé aqueles a quem pregava.
Na cidade de Listra, ordenou a um homem coxo de nascença:
“Levanta-te direito sobre os teus pés!”. Este deu um salto e pôs-se a
andar. Impressionado, num primeiro mo mento o povo quis adorá-lo como
um deus. Porém, manipulado por alguns judeus, acabou apedrejando
Paulo. Julgando-o morto, o arrastou para fora da cidade. O Apóstolo foi
salvo depois pelos discípulos.
Na ilha de Malta, curou o pai do governador,
impondo-lhe as mãos. Sabendo disto, os habitantes apressaram em
trazer-lhe todos os doentes da ilha, e todos foram curados.
E em Trôade, Paulo ressuscitou um moço que, durante
uma pregação que se prolongara noite adentro, adormeceu e caiu do
terceiro andar, vindo a falecer.
Seria demais longa a enumeração desses fatos prodigiosos.
Mencionemos apenas mais um, muito interessante para
mostrar como Nosso Senhor Jesus Cristo se compraz com o culto às
relíquias dos Santos. Diz o livro dos Atos dos Apóstolos
(19, 11):
“Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo
que lenços e outros panos que tinham tocado o seu corpo eram levados
aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os
espíritos malignos”.
O elogio de si mesmo, em defesa dos fracos na Fé
Premido pela necessidade de anular os efeitos nefastos de falsos
apóstolos, ministros de Satanás disfarçados em ministros de Cristo,
São Paulo vê-se obrigado a fazer aos cristãos de Corinto esta
magnífica apologia de si mesmo: “São hebreus? Também eu. São
israelitas? Também eu. São ministros de Cristo? Falo como menos sábio:
eu, ainda mais. Muito mais pelos trabalhos, muito mais pelos cárceres,
pelos açoites sem medida. Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes
recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes flagelado
com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei.”
Continuando, proclama que, sem a graça, ele nada é, e
faz uma repreensão aos coríntios: “Importa que me glorie? Na verdade,
não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor.
Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o
terceiro céu. (...) e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a
um homem repetir. Deste homem eu me gloriarei, mas de mim mesmo não
me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas (...) Vós é que deveríeis
fazer o meu elogio, visto que em nada fui inferior a esses eminentes
apóstolos, se bem que nada sou”.
Também perante os gálatas, teve de usar argumentação
semelhante: “Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos
chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente.
(...) Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada
de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma
revelação de Jesus Cristo. (...) Estou pregado à cruz de Cristo. Eu
vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida
presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se
entregou por mim”.
E aos filipenses: “Se há quem julgue ter motivos
humanos para se gloriar, maiores os possuo eu: circuncidado ao oitavo
dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu e filho de
hebreus. (...) quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível.
(...) Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que
vivem segundo o exemplo que nós vos damos. Porque há muitos por aí, de
quem repetidas vezes vos tenho falado e agora o digo chorando, que se
portam como inimigos da cruz de Cristo. Nós, porém, somos cidadãos dos
céus.”
Combateu o bom combate, recebeu no Céu a coroa de justiça
Grandiosa foi sua vida, tal será também sua morte.
Sendo cidadão romano, São Paulo não podia ser
crucificado. Foi, assim, decapitado pela espada, no ano 67.
Conta-nos a tradição que sua cabeça, rolando ao solo, saltou três
vezes e fez brotar três fontes que podem ser vistas ainda hoje na Igreja
de San Paolo alle Tre Fontane, na via d’Ostia, em Roma.
Estando preso em Roma, o incansável Apóstolo não
deixou de pregar, e obteve a conversão de incontáveis almas. Posto em
liberdade no início do ano 64, dirigiu-se à Espanha e à Ásia.
Retornando a Roma, foi preso novamente, desta vez com São Pedro.
Ficaram eles na prisão mais antiga de Roma, o Cárcere Mamertino,
local impregnado de bênçãos, que comove a quantos por lá passam. Com
efeito, como não se impressionar ao contemplar, logo nos primeiros
degraus da estreita escada que leva ao calabouço, a marca do rosto
do Príncipe dos Apóstolos, milagrosamente impressa na parede de pedra?
E que emoção ao ver no canto da cela a fonte que brotou do solo,
possibilitando aos Apóstolos batizarem os próprios carcereiros,
convertidos pelo seu exemplo e pregação!
No final de sua heróica vida, pôde o Apóstolo das
Gentes cantar este hino de triunfo do varão que sente a consciência
limpa na hora do encontro com o Supremo Juiz: “Combati o bom combate,
terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa
da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não
somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua
aparição”.